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Sexta-feira, Setembro 16, 2005

Livros de Mulherzinha

Eu odeio esse nome, essa tradução para o português da expressão "Chiklit". Mulherzinha, pra mim, sempre foi um termo pejorativo, do tipo "aquela mulherzinha infame". E acho que esse gênero de literatura, voltado para a realidade feminina atual, fica parecendo literatura de segunda classe quando é chamado de "livros de mulherzinha", ou "literatura de mulherzinha". Um horror, em resumo. Uma tradução melhorzinha poderia ser "livros de garotas" (chik = garotas, e não mulherzinhas...)
Mas o fato é que esse nome parece ter pego, então me sinto meio obrigada a usá-lo.
Já li, e tenho lido regularmente, muitos livros dessa categoria. Alguns, mesmo curtindo, reconheço que são fracos, diversão meio descartável. Outros, no entanto, são realmente muito bons, daqueles que a gente gostaria de ter escrito.
Não sei como, acabou caindo na minha mão uma crítica interessante sobre o gênero, que vou reproduzir aqui (um pedaço):

"Eu estava lendo o livro Quando em Roma de Gemma Townley e me chamou a atenção uma coisa: por que nesses livros de mulherzinha, as mulheres são sempre péssimas profissionais?
Nesse caso, a personagem trabalha numa editora de livros de auditoria, não entende nada de nada, vive só lendo e-mails particulares, se atrasa na entrega de trabalhos, copia o traabalho dos outros e ainda faz tudo errado.

Em Bridget Jones, a mesma coisa: na editora ela era uma porta. Como jornalista, patética. E não fazia nada para melhorar, para parar de ser vista como uma idiota.

A Becky Bloom se saiu um pouco melhor. Como jornalista econômica ela copiava do releases, não entendia nada do que estava fazendo. Depois passou a aconselhar as pessoas sobre o seu dinheiro... uma completa fraude. Só se deu bem quando passou a ser consultora de compras.

No O Segredo de Emma Corrigan, o mesmo padrão se repete: a personagem, como assistente de marketing, só faz besteira. Mas como ela namora o chefe, quem se importa?

E o mais estranho é que em todos os casos, elas desvendam algum problema seja no trabalho delas ou dos namorados e salvam o dia! E desvendam só usando a intuição, nunca a inteligência... sempre tem outro personagem que com a ajuda delas, resolve as situações...

É no mínimo esquisita a mensagem que isso passa... no fundo essas personagens não querem ser produtivas, independentes... querem é arranjar um marido. No fundo, o trabalho é alguma coisa que elas fazem (mal e porcamente) até encontrarem seu príncipe. No fundo, essas mulheres não tem uma inteligêcia racional, são incapazes de pensar e entender coisas nem tão complexas assim, só utilizam a sensibilidade e a intuição. No fundo a emoção (o fato de estar a fim de algum cara) faz com que elas fiquem tão cegas que não consigam pensar em nada, nem em suas vidas, nem em suas carreiras, nem em sua satissfação pessoal.

Eu não acho que isso retrate a realidade.

Eu tenho vários livros desses, vivo emprestando para minhas amigas... são divertidos. Mas qualquer produto cultural retrata uma tendência da sociedade, retrata uma visão de mundo. Se vc quiser ficar só na diversão, ótimo. Mas se quiser ir um pouco mais fundo, pode encontrar algo para pensar... A maneira como as mulheres são retratadas nesses e outros livros dá até assunto para uma tese de mestrado..."
fonte:..::Faxina Mental::.. por Thaty Viana (arquivos 01.06.2005)
Eu já tinha pensado nisso quando li os primeiros livros do gênero. Concordo que, se ficar nessa fórmula, corre-se o risco de virar mais um estereótipo da mulher "moderna": a garota desmiolada, que trabalha fora, mas na verdade é uma perdida incompetente que tem uns lances de sorte baseados na emoção e na intuição, conhece um bom partid, a versão moderna do "príncipe encantado" que se apaixona por ela nem sei como nem porque, e vive feliz para sempre. Estilo Cinderela reciclado. Não dá pra deixar de notar.
Só que a minha conclusão acabou sendo um pouco diferente. Acho que vivemos em um mundo que cobra da mulher que ela seja magra, elegante, linda, perfeita, inteligente, forte, trabalhadora competente, sexy, confiante...etc, etc... O modelo de perfeição é a top model, ou a jovem profissional de sucesso. Tá. E as milhares de mulheres que não são assim, com quem irão se identificar? Aquelas que trabalham, sim, mas não são nenhum sucesso retumbante, nem estão muito seguras de sua carreira? Ou as gordinhas? As inseguras? Aquelas que leem horóscopo de manhã, começam dieta toda segunda feira, curtem uma fofoca sobre gente famosa, é louca por compras... ou seja, a mulher comum!! É isso que o gênero tenta retratar: a mulher comum, seja ela a solteira insegura no amor e na profissão, ou bem-sucedida profissionalmente com suas inseguranças bem escondidas e dificuldades amorosas... a compradora compulsiva... a jovem mãe, abandonada... mulheres que sofrem baques, dão a volta por cima, muitas vezes de maneira bem pouco ortodoxa.
Posso citar vários exemplos desse mesmo gênero que apresentam a personagem principal (ou uma delas) com vida profissional bem sucedida: Sushi, Não Sei Como Ela Consegue, A Imaginação Hiperativa de Olivia Joules, Sex in the City ...
Sabe qual é a grande sacada do gênero, que o diferencia de outros livros ao gosto feminino, de autoras como Nora Roberts, Barbara Delinsky? É exatamente retratar a mulher comum, com suas dificuldades e deficiências, todas aquelas características, muitas vezes hilárias, que muitas de nós também tem e acabam se reconhecendo ali... Nada da mulher maravilhosa, de beleza estonteante, temperamento forte e que vai lutar, feito heroína, contra as adversidades, enquanto conhece seu príncipe encantado ... (nada contra isso também, veja bem: adoro romance água-com-açúcar desse estilão. Mas é bem pouco realista, né?)
Mas a tal chiklit atual tenta rir da realidade, escapar desse estereótipo de perfeição que escraviza a mulherada de hoje, e, assim, permitir que nós, mulheres normais e comuns, possamos nos identificar com as personagens dos livros. E aí, tem de tudo: a desmiolada que só enrola no emprego, a mulher abandonada assim que dá a luz na maternidade (Melancia), a dependente química (Férias), a profissional ultra-competente que passou boa parte da vida construindo um novo eu pra escapar da vida proletária da família (Sushi, Olivia Joules), a escritora de sucesso que se esconde atrás de pseudônimo porque tem vergonha do que escreveu (Marsha Mellow e eu)...
Bem, como eu tinha falado no post anterior, peguei ontem pra reler o livro "Não Sei Como Ela Consegue". Esse livro é muuuuuito bom. Eu me identifiquei tanto com ele na primeira vez que li, que me fez até mal. Deu um baixo-astral desgraçado!Em determinadas partes, chorei pra valer, doeu o coração . A autora conseguiu expressar algumas coisas do dia-a-dia da mulher que leva uma vida ao estilo da minha, a "mãe na faixa dos 35 que trabalha fora e tenta equilibrar vida profissional-afetiva-maternidade" de uma maneira espetacular. É um daqueles livros que eu queria ter escrito... É claro que tenho que reconhecer que a minha situação, a situação das mulheres de classe média das grandes cidades no Brasil, tem algumas vantagens sobre a das inglesas : temos a possibilidade de contratar empregadas domésticas mais facilmente, por salários mais acessíveis. Temos, na maioria, um "exército" que nos dá retaguarda. Mas acho que eu também, pelo fato de ser profissional liberal, tenho as minhas vantagens. Enfrento menos machismo, menos cobrança externa... quando eu fazia meu mestrado, logo depois de ter tido os meninos, passei várias vezes por situações bem semelhantes ao retartado no livro. Os chefes, os superiores, e muitos dos colegas, esperam que sua vida se resuma ao trabalho, que toda a sua dedicação de corpo-e -alma seja pra lá. ninguém leva em conta que você tem vida pessoal, filhos, marido, casa, família... a ordem é NÃO ter vida pessoal, ou disfarçar bem se a tem. Bem, de fato, tirando uma diferença ou outra, está tudo lá: as inseguranças pessoais, ao lado da nossa segurança na própria competência no trabalho, a culpa eterna quando qualquer coisa dá errado, todas as questões que envolvem o cuidado com os filhos no dia-a-dia da mulher que trabalha (babá, escola, doença, etc...etc...). É pra ler e reler de tempos em tempos. Só que deixa um baixo-astral residual feroz. Então hoje mesmo vou começar alguma coisa mais light. Livro de Mulherzinha, claro...

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|">|| Leia uma tradução ruim pro inglês: Translation to English ||

Livros de Mulherzinha

Sexta-feira, Setembro 16, 2005

Livros de Mulherzinha

Eu odeio esse nome, essa tradução para o português da expressão "Chiklit". Mulherzinha, pra mim, sempre foi um termo pejorativo, do tipo "aquela mulherzinha infame". E acho que esse gênero de literatura, voltado para a realidade feminina atual, fica parecendo literatura de segunda classe quando é chamado de "livros de mulherzinha", ou "literatura de mulherzinha". Um horror, em resumo. Uma tradução melhorzinha poderia ser "livros de garotas" (chik = garotas, e não mulherzinhas...)
Mas o fato é que esse nome parece ter pego, então me sinto meio obrigada a usá-lo.
Já li, e tenho lido regularmente, muitos livros dessa categoria. Alguns, mesmo curtindo, reconheço que são fracos, diversão meio descartável. Outros, no entanto, são realmente muito bons, daqueles que a gente gostaria de ter escrito.
Não sei como, acabou caindo na minha mão uma crítica interessante sobre o gênero, que vou reproduzir aqui (um pedaço):

"Eu estava lendo o livro Quando em Roma de Gemma Townley e me chamou a atenção uma coisa: por que nesses livros de mulherzinha, as mulheres são sempre péssimas profissionais?
Nesse caso, a personagem trabalha numa editora de livros de auditoria, não entende nada de nada, vive só lendo e-mails particulares, se atrasa na entrega de trabalhos, copia o traabalho dos outros e ainda faz tudo errado.

Em Bridget Jones, a mesma coisa: na editora ela era uma porta. Como jornalista, patética. E não fazia nada para melhorar, para parar de ser vista como uma idiota.

A Becky Bloom se saiu um pouco melhor. Como jornalista econômica ela copiava do releases, não entendia nada do que estava fazendo. Depois passou a aconselhar as pessoas sobre o seu dinheiro... uma completa fraude. Só se deu bem quando passou a ser consultora de compras.

No O Segredo de Emma Corrigan, o mesmo padrão se repete: a personagem, como assistente de marketing, só faz besteira. Mas como ela namora o chefe, quem se importa?

E o mais estranho é que em todos os casos, elas desvendam algum problema seja no trabalho delas ou dos namorados e salvam o dia! E desvendam só usando a intuição, nunca a inteligência... sempre tem outro personagem que com a ajuda delas, resolve as situações...

É no mínimo esquisita a mensagem que isso passa... no fundo essas personagens não querem ser produtivas, independentes... querem é arranjar um marido. No fundo, o trabalho é alguma coisa que elas fazem (mal e porcamente) até encontrarem seu príncipe. No fundo, essas mulheres não tem uma inteligêcia racional, são incapazes de pensar e entender coisas nem tão complexas assim, só utilizam a sensibilidade e a intuição. No fundo a emoção (o fato de estar a fim de algum cara) faz com que elas fiquem tão cegas que não consigam pensar em nada, nem em suas vidas, nem em suas carreiras, nem em sua satissfação pessoal.

Eu não acho que isso retrate a realidade.

Eu tenho vários livros desses, vivo emprestando para minhas amigas... são divertidos. Mas qualquer produto cultural retrata uma tendência da sociedade, retrata uma visão de mundo. Se vc quiser ficar só na diversão, ótimo. Mas se quiser ir um pouco mais fundo, pode encontrar algo para pensar... A maneira como as mulheres são retratadas nesses e outros livros dá até assunto para uma tese de mestrado..."
fonte:..::Faxina Mental::.. por Thaty Viana (arquivos 01.06.2005)
Eu já tinha pensado nisso quando li os primeiros livros do gênero. Concordo que, se ficar nessa fórmula, corre-se o risco de virar mais um estereótipo da mulher "moderna": a garota desmiolada, que trabalha fora, mas na verdade é uma perdida incompetente que tem uns lances de sorte baseados na emoção e na intuição, conhece um bom partid, a versão moderna do "príncipe encantado" que se apaixona por ela nem sei como nem porque, e vive feliz para sempre. Estilo Cinderela reciclado. Não dá pra deixar de notar.
Só que a minha conclusão acabou sendo um pouco diferente. Acho que vivemos em um mundo que cobra da mulher que ela seja magra, elegante, linda, perfeita, inteligente, forte, trabalhadora competente, sexy, confiante...etc, etc... O modelo de perfeição é a top model, ou a jovem profissional de sucesso. Tá. E as milhares de mulheres que não são assim, com quem irão se identificar? Aquelas que trabalham, sim, mas não são nenhum sucesso retumbante, nem estão muito seguras de sua carreira? Ou as gordinhas? As inseguras? Aquelas que leem horóscopo de manhã, começam dieta toda segunda feira, curtem uma fofoca sobre gente famosa, é louca por compras... ou seja, a mulher comum!! É isso que o gênero tenta retratar: a mulher comum, seja ela a solteira insegura no amor e na profissão, ou bem-sucedida profissionalmente com suas inseguranças bem escondidas e dificuldades amorosas... a compradora compulsiva... a jovem mãe, abandonada... mulheres que sofrem baques, dão a volta por cima, muitas vezes de maneira bem pouco ortodoxa.
Posso citar vários exemplos desse mesmo gênero que apresentam a personagem principal (ou uma delas) com vida profissional bem sucedida: Sushi, Não Sei Como Ela Consegue, A Imaginação Hiperativa de Olivia Joules, Sex in the City ...
Sabe qual é a grande sacada do gênero, que o diferencia de outros livros ao gosto feminino, de autoras como Nora Roberts, Barbara Delinsky? É exatamente retratar a mulher comum, com suas dificuldades e deficiências, todas aquelas características, muitas vezes hilárias, que muitas de nós também tem e acabam se reconhecendo ali... Nada da mulher maravilhosa, de beleza estonteante, temperamento forte e que vai lutar, feito heroína, contra as adversidades, enquanto conhece seu príncipe encantado ... (nada contra isso também, veja bem: adoro romance água-com-açúcar desse estilão. Mas é bem pouco realista, né?)
Mas a tal chiklit atual tenta rir da realidade, escapar desse estereótipo de perfeição que escraviza a mulherada de hoje, e, assim, permitir que nós, mulheres normais e comuns, possamos nos identificar com as personagens dos livros. E aí, tem de tudo: a desmiolada que só enrola no emprego, a mulher abandonada assim que dá a luz na maternidade (Melancia), a dependente química (Férias), a profissional ultra-competente que passou boa parte da vida construindo um novo eu pra escapar da vida proletária da família (Sushi, Olivia Joules), a escritora de sucesso que se esconde atrás de pseudônimo porque tem vergonha do que escreveu (Marsha Mellow e eu)...
Bem, como eu tinha falado no post anterior, peguei ontem pra reler o livro "Não Sei Como Ela Consegue". Esse livro é muuuuuito bom. Eu me identifiquei tanto com ele na primeira vez que li, que me fez até mal. Deu um baixo-astral desgraçado!Em determinadas partes, chorei pra valer, doeu o coração . A autora conseguiu expressar algumas coisas do dia-a-dia da mulher que leva uma vida ao estilo da minha, a "mãe na faixa dos 35 que trabalha fora e tenta equilibrar vida profissional-afetiva-maternidade" de uma maneira espetacular. É um daqueles livros que eu queria ter escrito... É claro que tenho que reconhecer que a minha situação, a situação das mulheres de classe média das grandes cidades no Brasil, tem algumas vantagens sobre a das inglesas : temos a possibilidade de contratar empregadas domésticas mais facilmente, por salários mais acessíveis. Temos, na maioria, um "exército" que nos dá retaguarda. Mas acho que eu também, pelo fato de ser profissional liberal, tenho as minhas vantagens. Enfrento menos machismo, menos cobrança externa... quando eu fazia meu mestrado, logo depois de ter tido os meninos, passei várias vezes por situações bem semelhantes ao retartado no livro. Os chefes, os superiores, e muitos dos colegas, esperam que sua vida se resuma ao trabalho, que toda a sua dedicação de corpo-e -alma seja pra lá. ninguém leva em conta que você tem vida pessoal, filhos, marido, casa, família... a ordem é NÃO ter vida pessoal, ou disfarçar bem se a tem. Bem, de fato, tirando uma diferença ou outra, está tudo lá: as inseguranças pessoais, ao lado da nossa segurança na própria competência no trabalho, a culpa eterna quando qualquer coisa dá errado, todas as questões que envolvem o cuidado com os filhos no dia-a-dia da mulher que trabalha (babá, escola, doença, etc...etc...). É pra ler e reler de tempos em tempos. Só que deixa um baixo-astral residual feroz. Então hoje mesmo vou começar alguma coisa mais light. Livro de Mulherzinha, claro...

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